quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Em defesa dos gatos

Diz uma história, que gatos comem os seus donos se eles, os donos, morrerem sozinhos com eles, os gatos.

Parece até que existe um fundo de verdade nisso. Já aconteceu em algum lugar, em algum momento. 

Mas se a opção for esta ou morrer de fome, porque seria tão horrível? E eu sempre achei que depois que abandonamos este corpo, se ele tiver alguma utilidade, que seja útil! Se for alimentar meu gato, que seja!

Esta história não me assustou também porque não acho que  eu vá ficar muito tempo morta, esquecida sozinha com meu gato. Não tenho indícios de que morrerei de repente, mas sei que estou sujeita,  como todo mundo, mas mesmo assim, penso que não demoraria a ser descoberta. 

Mas hoje, ao final da aula online de yoga, relaxando muito profundamente no meu tapetinho, tive mais certeza de que o meu querido gato não me comeria, pelo menos não rapidamente... primeiro ele checa meus sinais vitais! Irritado com a falta de movimento mia... não atendo ao miado e aí ele captura minha mão inerte e passa a mordiscá-la. Está muito longe de morder! as patinhas seguram meu braço, com as unhas completamente guardadas. Nada de arranhões ou machucados... só preocupação e o pedido de que eu brinque com ele! 

Se eu tivesse desmaiado ao invés de estar só relaxando, ele teria me salvado! Teria me socorrido! Se eu tivesse de fato morrido, depois de muito fazer para me trazer de volta, talvez ele me comesse. Só um pouquinho... e teria merecido!

Como eu só estava relaxando, brinquei com ele, agradeci a atenção e agora ele dorme aqui ao lado, satisfeito e seguro porque sua humana preferida está viva! (6 de novembro de 2024)


 Hoje quebrei uma xícara no meu quarto do jeitinho que Pablo faria para chamar a minha atenção: um "totózinho" com a ponta dos dedos. Se eu quisesse fazer isso, imitando o meu companheiro querido, acho que não conseguiria. Foi necessária muita delicadeza. 

A caneca foi trazida de Barcelona e era uma das minhas preferidas. Surpreendentemente não me incomodei nem um pouco. Nem comigo - que normalmente recrimino pela falta de cuidado - e nem com esta perda. Pelo contrário. Me senti agraciada. Me peguei rindo e falando com ele; isso não se faz, Pitico! Não precisa... 

Mas desta vez precisava.  Pra me lembrar de quantas coisas ele me ensinou: de não ter pressa; de lembrar que espreguiçar é bom; que beber água é necessário; que acordar de madrugada pode ser um prazer;  que às vezes, só as vezes, segurar a vontade de fazer xixi vale a pena, pra sentir por mais tempo o calor e o ronronar do bichinho querido; que não tem nada de errado em pedir atenção.  

Então, sem pressa, vou continuar espreguiçando, bebendo água, acordando de madrugada. Sem pressa também vou deixar as lágrimas rolarem. Sem pressa vou deixar que decisões que não são urgentes amadureçam. Sem pressa, que nada é prá já. (25 de novembro de 2024)


terça-feira, 10 de setembro de 2024

Modorra e potência

 Serviço de casa sempre existe. Nem é preciso esforço para encontrar o que fazer em uma casa, por mais organizada e limpa que ela seja. E se você gosta destes serviços e confessa isso a todos, não se preocupe, é garantia de nunca faltarão e existirão em abundância.

Mas se você quiser participar mais disso, basta se manter na mesma casa em que finalmente cada filho pode ter o seu quarto, mesmo nenhum deles o utilize por mais do que uma ou duas vezes por semana, para dormir ou para deixar um rastro de presença. Basta assumir que sua lavanderia é familiar e dali as roupas só sairão lavadas e passadas. Basta ter como forma de reunir a todos e manter a união familiar, fazer o almoço dos domingos e se responsabilizar por tudo nele: resolver o cardápio, fazer as compras, limpar e arrumar a casa para receber, cozinhar, servir e depois arrumar toda a bagunça que ficou... 

Tudo isso pode ser feito verdadeiramente com prazer! Desfrutando da alegria de ver tudo em ordem, as pessoas amadas felizes e alimentadas, as roupas cheirosas... 

Mas em meio a esta felicidade pode começar a surgir um mau-humor, um incômodo, uma sensação de mesmice e desconforto... Uma modorra... uma falta de vontade... a inevitável sensação de espera...

Mas este tempo também tem lugar para o seu café com livro das manhãs, a possibilidade de maratonar séries na TV. Muito bom. Mas e as idas ao cinema? Há quanto tempo não acontecem? E visitas ás pessoas queridas, e a ideia de visitar ao menos um museu, galeria, ou seja o que for por mês? E as questões adiadas para resolver na rua?

E quando o sair desta casa tão boa e com tantas coisas para fazer te impede de sair para uma última despedida? 

Se habituar com a mesmice, com uma rotina pouco criativa e produtiva, com a ausência de mudanças é uma forma de apenas se colocar à espera. Uma espera agradável e tranquila, mas uma espera pouco potente. A espera de que alguém precise de alguma coisa  que te faça mover, a espera de um convite irrecusável, em última instância: a espera de que não haja mais nada a ser feito.

E então a despedida a que você não foi, o livro que te dá tanto prazer, o pó  que se acumula nas estantes por mais que você esteja sempre em atividade limpando, tudo isso te chama pra vida. Para a necessidade de tomar as rédeas, de ter atitude, de confiar no seu potencial e na sua potência. É hora de (re)tomar a vida nas mãos! De contar com ela e honrá-la! 


 



sexta-feira, 26 de julho de 2024

Sol, cadernos, segredos

Escrevo em vários lugares. Cadernos, espaços virtuais, gravo textos no celular que nunca volto a escutar. De uns tempos pra cá tenho percebido que penso em forma de texto escrito. Mas, em geral, a Martha, a irmã de Maria, tem coisas muito urgentes para fazer e os textos vão passando pela sua cabeça enquanto lava, limpa, varre, corta, organiza, arruma, cozinha... 

Talvez se parasse com todos estes afazeres intermináveis também deixasse de pensar "em texto". E aí para que sentar e pegar a caneta, o teclado?... 

De certa forma distribuir os escritos em lugares variados é uma forma de manter e selecionar públicos: este pode ser lido por esta e aquela pessoa... esta parte melhor não...um pouquinho de açúcar aqui... um pouco de ironia ali... soturna... inteligente... sagaz... infantil... pretensiosa?

Quando um texto parece vazar, o susto! Mas porque ele está no mais público dos cadernos? Não será para que seja encontrado? E o que teria nele de segredo? Afinal, é o mais ficcional de todos eles! Será que é assim que a ficção nos mostra a verdade?

E hoje, em um dia de sol, o céu parece cinza. Angustia. 

quarta-feira, 3 de abril de 2024

O garfo, a vontade, o gato, a ação...

 Indo da lavanderia à cozinha ela tropeçou. Seria um tombo bobo, não fosse o garfo trinchante que estava na sua mão e que não tinha ajudado a limpar o filtro da máquina de lavar roupas. Ele poderia ter se fincado em outro lugar, mas achou uma boa ideia acertar a jugular. Ou será a carótida?

Vendo o chão ficar vermelho do sangue ela pensava se deveria pedir socorro ou apenas desfrutar da gostosa sensação de relaxamento e dos pensamentos que passavam pela sua cabeça.

Pensou em chamar seu gato, mas a lembrança do anúncio chocado e chocante, feito pelo seu ex-amante,  de que gatos comem seus donos mortos a fez rever a ideia...

Pensou também em levantar rapidamente, como sempre fez, mas a situação tinha um quê de interessante e, afinal, pra que a pressa? Ela não tinha resolvido ser mais lenta nesta etapa da vida? Estava no terceiro trintênio e resolvida a dar mais ouvido às suas necessidades. Não tem filho pequeno pra cuidar, as vasilhas do gato estão cheias, a caixa de areia limpa...  

Lembrando do gato e do alerta chocante - que ela não deu a menor bola quando recebeu - começou a pensar que talvez fosse melhor se levantar de uma vez!

Mas lembrar do ex-amante puxou um fio de pensamento para seguir. E como diz Turguêniev em um ensaio em que compara Hamlet e Dom Quixote (e os considera incomparáveis): "Neste ponto nos aparece o aspecto trágico da vida humana tantas vezes notado: para agir é preciso vontade, para agir é preciso pensamento; mas pensamento e vontade separam-se e, a cada dia, separam-se mais ainda... " e aí cita Shakespeare e seu Hamlet, que diz: "E assim a cor nativa da vontade, desbota, sob a palidez do pensamento"...

Ela poderia ter lembrado deste texto, afinal, foi lido recentemente, mas a lembrança do ex-amante se impõe e nas lembranças e pensamentos sobre a tentativa de reaproximação feita por ela,  também sua vontade de levantar empalidece.  Teria sido bom se eles tivessem se entendido? Mas será que ela queria mesmo? E se sobrasse mais do que a agradável companhia a necessidade de cuidar? Ela já havia decidido que estava agora em uma nova fase: mais livre, mais solta, mais egoísta, aprendendo cada dia mais a dizer não...

E a sua libido, definitivamente, estava comprometida. Vontade bem pequena desta ação também. Melhor continuar na liberdade de dormir com seu gato - mesmo que ele a coma depois da morte! - de ler, comer, ver bobagens ou não no Youtube da tv do quarto...

Ops! Um pensamento ativa a sua vontade; sua filha vai sofrer muito se a encontrar morta e comida pelo gato! Mais uma  vez a delícia dos pensamentos a toma. Que maravilha é o amor! Mas a possibilidade de ferir tanto a uma pessoa tão amada e tão merecedora de amor lhe traz de volta a vontade. 

A autora aqui percebe que a força deste amor tão real atrapalha muito sua capacidade como ficcionista! É preciso deixar para outra hora a continuidade deste texto, depois que afastar a visão tão doce que compromete seu distanciamento.

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Minha vida interessante. A música.

 Minha infância foi marcada por música. Minha mãe tocava piano e cantava. Árias de ópera. Lindamente. E também canções italianas, hinos protestantes - minha família materna era presbiteriana. Naquela época não se usava o termo "evangélico" - melodias clássicas da música brasileira, que também naquela época não era conhecida como MPB.

Minha tia avó Esther, muito querida, era uma exímia pianista e tocava o "Tico Tico no Fubá" com a agilidade e talento necessários.

Meu pai cantava! Acompanhando as mulheres tão musicais. Sempre o ouvi brincando que não tinha talento nenhum, mas sua voz grave e alegre nunca me pareceu desafinada. Me lembro dele cantando "Ô leva eu, que eu também quero ir..." no carro, nas ladeiras da avenida Pompéia, e eu chorando, muito triste e irritada porque me parecia que  aquele era um pedido e que Deus o ouviria... desde aquele tempo, ainda alguns anos antes da morte da minha mãe, eu tinha muito medo de que meu pai morresse e me  deixasse. 

Nunca houve nenhuma pressão ou empenho para que meu irmão e eu seguissemos estes dons musicais. Apesar de termos piano em casa não me lembro de ter sido incentivada a tentar tocá-lo. Era um espaço da minha mãe, e da minha tia, quando nos visitava. Não era um brinquedo a ser explorado por crianças. 

No início da adolescência, acho que a meu pedido mesmo, ganhei um violão e tive algumas aulas. Acredito que tenha se comprovado aí a minha ausência de jeito, já que não fui além de "Pena Verde"...

Um pouco mais tarde, já depois de ter perdido minha mãe, resolvi fazer aulas de ballet clássico. Mesmo sem acreditar que tivesse qualquer talento, ou facilidades físicas, fiz ballet por quase oito anos e a música clássica, nos anos mais avançados tocada ao piano, teve um papel importante no meu prazer em estar lá transpirando, dolorida e as vezes sangrando. As amizades e o desafio também ajudaram bastante.

Por muitos anos ouvi muita música popular, fui a shows - me lembro de muitos no Anhembi e não consigo nem entender como eu chegava até lá! - tive artistas preferidos em várias fases e ouvia um mesmo disco - E eram mesmo discos rodando na vitrola - por dias e horas a fio. Taiguara, Silvinha Teles, Chico Buarque, Oswaldo Montenegro, Beto Guedes e todo o Clube da Esquina.... e um tanto de Beatles e Paul McCartney...  

Quando finalmente saí da casa do meu pai e fui morar em um delicioso apartamento com uma amiga - minha comadre hoje - a vitrola era o eletrodoméstico mais importante e ativo. Ouvíamos música o tempo todo e mais uma vez tive o prazer de ouvir uma soprano cantando na minha casa. Minha comadre arrasa!

Depois tive fases de música caipira, muita música infantil  quando meus filhos eram pequenos, um tantinho de rock com filho baixista, e uma curtição de fossa danada ouvindo muito Marisa Monte e Adriana Calcanhoto.

E daí parece que houve um longo período de vácuo musical. Troquei a música pela notícia, o toca CDs pelo rádio e acho que nem me dei conta disso...

Tenho sido salva recentemente por um filho extremamente musical que mora comigo - e ouve música na caixinha amplificadora, o que faz com que eu compartilhe - e pelos concertos da Orquestra Sinfônica da USP! Que prazer tem me dado ir ao Camargo Guarnieri, aqui ao lado, e ouvir música clássica, orquestra com voz negra marcando a beleza da diversidade, orquestra com viola caipira me emocionando até as lágrimas. 

Aos poucos tenho resgatado este enorme prazer. Um show de MPB convidada pelo filho, uma mudança de estação de rádio, uma exploração pelo Spotify...

Sem dúvida, com música, a vida fica mais interessante. 

sábado, 7 de outubro de 2023

Mais uma mãe querida

 Ela era a amiga mais próxima da minha mãe. E quando eu fiquei sozinha ela me acolheu. Devo muito a essa querida tia: o gosto pela leitura foi incentivado por ela, que e emprestava livros e mais livros que eu lia com disposição. Com ela aprendi a fazer um risoto com arroz agulhinha, açafrão e queijo, que ficava amarelinho e delicioso. Nunca mais tentei fazê-lo. Foi ela que garantiu que eu tivesse uma festa de quinze anos e fez meu vestido e os enfeites de decoração. Era um vestido longo, azul turquesa, com um cinto largo com margaridas bordadas. Infelizmente, ao que parece, ninguém garantiu uma foto para a recordação... 

Um dos sonhos mais impressionantes logo após a morte da minha mãe foi dela e comigo. Acordei já pensando que queria ver a tia Carminha. Ela morava em um apartamento nas Perdizes e eu ia vê-la com alguma frequência. Neste dia, sem combinar, fui até lá e ao abrir a porta para mim ela começou a chorar, emocionada. Me contou que naquela noite havia sonhado com a minha mãe. Ela atendia a porta de seu apartamento e minha mãe estava lá, lhe entregando um enorme buquê de rosas! Não sei se esta lembrança é real ou se foi criada pela minha imaginação. Gosto de acreditar que foi uma das mensagens enviadas pela minha mãe, garantindo que me amava.

Deste apartamento também tenho uma lembrança assustadora e angustiante. Era em um andar alto - 14º ou 16º - e um dia meu pai foi me buscar, já no fim da tarde, ou a noite. Acabou a luz e, consequentemente, o elevador deixou de funcionar. Naquele tempo geradores não eram comuns. A escada era toda com paredes de vidro,  o que garantia a entrada de alguma luz assim como uma bela e/ou apavorante vista do exterior. Para mim foi assustador. Talvez venha daí meu medo de altura. Ou eu já tinha e foi reforçado. Sem nenhuma chance de escapar, meu pai queria ir embora e não permitiu que eu não fosse com ele, desci todos aqueles andares olhando para o abismo... Tive pesadelos com altura por muitos anos. Até a vida adulta. Quando meus filhos eram pequenos sonhava que estava andando em andaimes de construção e me forçava a isso porque era a única forma de escapar de alguma coisa...

Em férias, fui passar alguns dias com eles no Guarujá. Tão férias!!!! Ficava na praia o tempo que quisesse. Voltava para o apartamento e minha tia me esperava  sempre bem humorada, alegre, com uma comida deliciosa pronta e dicas de beleza: casca de melancia no rosto para aplacar o calor do bronzeamento é a única que me lembro. Pelo carinho dela ter me esperado com as cascas geladinhas... 

Penso que foi ela a única pessoa que leu os meus diários. E os devolveu com carinho, cuidado, guardando meus segredos e sendo sempre solidária com as minhas dores. 

Quando fiz vinte e um anos recebi do meu tio, marido desta querida, um lindo ramalhete de flores, entregue pela floricultura, coisa cara e rara naquela época eu acho, com um cartão que mesmo sem ter guardado nunca me esqueci: "Bem-vinda à maioridade legal. Parabéns". Ele era advogado e aquele gesto de atenção e carinho me surpreendeu e emociona até hoje.  Agora penso que deveria ter lido esta mensagem como um aviso de que eu poderia tocar a minha vida livremente a partir daquela data... mas, idade não significa maturidade...

Era delicioso ouvir as histórias de viagens do casal. Eles adoravam viajar e faziam isso com bastante frequência. Viagens longas, à países distantes: Marrocos, Egito... E ela me contava das viagens mostrando as lembranças que trazia destes lugares.

Eles tinham uma filha. Mais velha do que eu e já casada nesta época. Eu não me lembro de tê-la encontrado pessoalmente, mas me lembro das fotos que minha tia me mostrava: do s eu casamento, de viagens: Chique, bonita, elegante, distante. Ela já tinha um filho, o neto adorado da minha tia, e depois teve meninos gêmeos - acho até que o primeiro caso de gêmeos que ouvi falar assim próximos. 

Não sei quando eu me distanciei ou eles se distanciaram, mas perdi completamente o contato com esta família tão importante para mim. Não sei o que aconteceu. Por muitos anos lembrei o número do telefone deles e me lembrava do endereço e do apartamento, mas nunca voltei lá ou voltei a vê-los. Por que será? Nunca saberei.


domingo, 24 de setembro de 2023

Varais

Imagino que daqui a alguns anos ninguém vá saber mais o que são varais! E eu tenho tantas boas lembranças de varais de roupa.

Roupa lavada me leva sempre a lembranças do passado: o quarador que existia no enorme quintal da casa da minha tia. Os varais das casas em que morei... lembranças soltas, curtas, cada uma de um lugar: um sapo que dormia no tanque da minha casa de infância e que provavelmente me deixou com um grande medo de sapos que persiste até hoje; o varal da minha deliciosa casinha no Jardim Esther e a terrível pancada que levei na testa passando por baixo dos varais e das roupas penduradas e levantando com tudo em uma porta de armário que eu mesma deixei aberta; a terrível e nauseante lembrança do cheiro de amaciante - absoluta novidade da época - misturado com um horrível cheiro de carniça, efeito do "Mil Gatos", veneno que matou a ratazana que se escondia na minha máquina de lavar! URGH!!!!!

Ufa, pronto... voltando as boas lembranças...

A mais antiga e forte é a da Dona Wanda. Xará da minha mãe, a dona Wanda era uma portuguesa que morava na casa exatamente em frente a minha. Uma casa simples e antiga, construída no alto de um barranco (provavelmente nem tão alto e nem tão barranco, mas é a memória de uma menina de cinco, seis anos) onde moravam dona Wanda, seu marido e dois filhos: Manoel e Maurício, este último o meu primeiro amor...

Dona Wanda era em muita coisa o oposto da minha mãe: usava roupas simples, era nada vaidosa - talvez não tivesse oportunidade de ser - e eu me lembro dela no tanque, lavando roupas incansavelmente. Tenho a impressão de que eu me sentava por perto e a observava, querendo ser como ela no futuro, ou ter como ela aquela grande habilidade e disposição. Não  sei se de fato isto aconteceu, se fiquei lá observando. Não me lembro de conversar com ela, então talvez tenha sido só uma imagem, que gravei para sempre. Um momento tão importante em que estive na casa do menino que eu sonhava que seria meu marido no futuro.

Não me lembro mais do Maurício e nem do que aconteceu com esta família. Não me lembro quando mudaram ou quando a casa foi vendida, ou quem a ocupou depois. Ficou na minha lembrança apenas a imagem da dona Wanda e a admiração e ternura que senti por ela naquele momento e que perdurou por toda a minha vida.