domingo, 6 de março de 2022

Livros de fevereiro

 Fevereiro, mês curto, de calor e preparação para o carnaval... o calor demorou a chegar e o carnaval, ao menos formalmente, foi adiado... eu não li muitos livros, mas chorei com todos eles... 

Tudo é Rio, de Carla Madeira me surpreendeu. Não sei porque fui com um pé atrás... achei lindo. Chorei muito no final, que na verdade me pareceu fantasioso, mas me tocou... achei que os grandes temas do livro são o amor e o perdão. O que é possível perdoar? 



Ainda enxugando as lágrimas de Tudo é Rio, parti para o próximo da mesma autora. Masoquismo? Deve ser... mais um rio de lágrimas... outra vez o amor, a paixão, a vingança, o perdão, as consequências...  Véspera, de Carla Madeira.



Este eu sabia o enredo e mesmo assim resolvi ler. Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy. O relato, com detalhes e contado exaustivamente, de um estupro. 



Não foi para fechar o mês porque a ordem aqui está incorreta... finalmente, o tão falado A Pediatra, de Andrea Del Fuego. Irritante? Achei bastante. Não sei se gostei, mas também não desgostei demais, porque li até o fim... 


E lá se foi fevereiro. O calor chegou com força, teve feriado de carnaval e alguma folia, a pandemia parece arrefecer pelo menos em São Paulo e começou mais uma guerra, das grandes, não que as pequenas sejam menos tristes.  


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Livros de janeiro

 Comecei o ano lendo bastante! Não sei muito bem se  foi porque tive mais tempo livre (tive mesmo porque reduzi bastante a minha atuação no Butantã e a pandemia restringiu bastante os meus encontros com amigos) mas acho que foi também porque fechei o ano e  comecei janeiro com um livro apaixonante:


Pachinko, de Min Jin Lee, é uma saga familiar. Uma pequena família coreana, a jovem Sunja e sua vida e a de seus filhos. A cultura oriental coreana e japonesa (Sunja se muda para o Japão), a guerra, as dificuldades, os preconceitos. Uma história linda e, felizmente, longa! 

Depois de um livro arrebatador acho sempre difícil escolher o próximo. Para não perder o ritmo peguei um pequenino do Valter Hugo Mãe: 


Serei sempre o teu abrigo, é uma pequena história doce e delicada. Como todas as do VHM também um pouco triste. Mas bonita e para ler em uma tarde. 

Estava me preparando para a leitura do novo romance do Mãe, que pedi e ganhei no natal:


As doenças do Brasil. Foi difícil. Achei por um momento que não ia conseguir terminar o livro. Demorei para me habituar e para gostar da linguagem, me senti irritada com a impressão de que não estava entendendo nada. A partir do quarto ou quinto capítulo o livro parece ter me envolvido mais e daí não tive mais vontade de abandoná-lo. Longe de ser o meu preferido dele - A Máquina de fazer espanhóis e O remorso de Baltazar Serapião ainda são os meus preferidos - As doenças do Brasil é interessante. Talvez mais duro ainda porque vivemos em tempos tão doentes neste país...

Para dar um alívio e porque queria participar de uma conversa em um clube do livro, o próximo livro veio sem que eu tivesse muita informação ou expectativa:


O Lugar, de Annie Ernaux. Li em um domingo de sol. E não que ele seja um livro solar, porque é um livro sobre relação e ruptura de pai e filha, assunto que nunca é leve pra mim. Me apaixonei. Lindo, de leitura que segura e encanta. Li de uma vez porque ele é pequeno, mas também porque não consegui largar. Foi o segundo preferido do mês. 

Mas, parece que eu tinha desafios a me impor para este começo de ano. Resolvi reler, já que li há décadas e não lembrava de nada:

A paixão segundo GH. Eu não achei que seria fácil, afinal, quem diz que Clarice Lispector é fácil? Mas, foi BEM difícil. Fui movida pela sugestão de uma amiga de que eu não procurasse entender, apenas sentisse... ok... mas no início - depois de um primeiro capítulo maravilhoso em que me reconheci, me senti esperta (achei que estava entendendo tudo!) e acreditei que não seria assim tão difícil - o sentimento que me dominava era o nojo!!!! Acostumei. Superei. Mas aí o sentimento mais forte era de que minha inteligência não dava pra tanto! Movida pela ideia de sentir mais do que racionalizar, dei sequência. As vezes aflita, as vezes angustiada, muitas vezes impaciente. Valeu a pena, claro! Acho que gostei mais décadas atrás - talvez eu estivesse mais aberta aos sentimentos e menos preocupada em entender - mas claro que gostei desta vez. Não será meu livro de cabeceira, no entanto, talvez eu ainda volte a ele.

Para fechar o mês, achando que eu conseguiria relaxar um pouco:


Pequeno, porém pesado? Bonito, interessante, bem escrito, e duro. Bem duro. A leitura corre fácil. Não dá sensação de estranhamento de linguagem nem de não estar entendendo nada. Gostei dos personagens, me senti nos rochedos da costa do Pacífico colombiana. Adivinhei o final errado algumas vezes. Acertei no fim. Leia. Me diga o que achou.

Provavelmente não manterei esta média de leituras mensais. Seis livros não é o que eu costumo ler de jeito nenhum. Li tanto porque tive tempo, porque dei sorte nas escolhas e porque vários deles são bem curtinhos. Mas o primeiro de fevereiro está me encantando... conto no fim do mês se alguém quiser saber.


sábado, 17 de julho de 2021

Anos extraordinários

O ano passado foi um ano extraordinário. No sentido de começar já com reviravoltas e mudanças de curso. Meus objetivos iniciais eram de fazer longas caminhadas, visitar museus e exposições, ler muitos livros, planejar e fazer viagens, olhar mais para mim...

Já comecei levando um tombo em uma das primeiras caminhadas! Torci o pé, esfolei o joelho, me senti lenta, pesada e velha. 

Confusa  com horários e com a escolha de como ocupá-los, em uma rara quinta-feira em que falhei com a minha visita semanal ao meu pai recebi um telefonema dele assustado, triste, nervoso, amedrontado. 

Era final de janeiro e meu nem sempre bom, mas sempre amado pai, veio para minha casa. Para passar aqui comigo os seus últimos meses. É com a dor desta saudade imensa que escrevo. Não é este o tema deste texto, mesmo que ele margeie ou povoe tudo o que eu penso e sinto agora.

A partir daí um trator de fatos e emoções parece ter passado por cima de mim. E por cima do mundo. Emoções, aprendizados, sustos, surpresas, alegrias, tristezas, conquistas e fracassos. 

No ano da marmota, em que todos os dias pareciam iguais, a vida foi se transformando. Por baixo dos acontecimentos de maior impacto ou de maior visibilidade, muitas camadas de peles, de sentimentos, de ideias, de convicções foram se alterando, quase que imperceptivelmente...

Agora, momento em que o mundo parece querer voltar ao normal e as pessoas falam disso observando quais serão as diferenças nos padrões de comportamento e em quanto o a vida estará e será diferente, começo a me deparar com a maior mudança de todas. A mudança não é no mundo, não é nas pessoas, não é no meu cotidiano. Continuo vivendo o dia da marmota. Não me incomoda viver o dia da marmota. O dia pode ser muito parecido com o ontem, o cotidiano pode ter as mesmas marcas, mas eu não sou a mesma. E isso faz com que cada dia seja diferente porque a cada dia eu me descubro um pouco e a cada dia eu aprendo um pouco a viver com as diferenças da minha vida e como elas repercutem em mim.


sábado, 19 de dezembro de 2020

Livros 2020

Livros que eu li em 2020, este ano tão difícil... Só o fato de terem sido lidos já significa que gostei. Que de alguma forma me seguraram e fizeram sentido. Não insisto com livros que não me seguram. As vezes insisto um pouco, como fiz com "A Peste" neste ano, mas ele não entrou aqui porque não foi... tentei. Talvez em outra hora. Não consigo comentar um a um. Dificuldade em lidar com o blog. Não estão em ordem nenhum. Nem de leitura, nem de preferência, embora a primeira imagem seja d'A elegância do Ouriço, que talvez seja mesmo o meu livro preferido na vida! Tanto é que neste ano eu reli, coisa que não costumo fazer. Mas, vamos lá... comente! concorde ou discorde. Vou adorar!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Sonhos de adulta

O que você sonhava ser quando criança?

Fui surpreendida pela pergunta. E fiquei embasbacada por não saber responder. Não sonhava nada?! Lembrei do sonho do meu irmão, que desenhava a sua fazenda, com criação de gado, cavalos, lago, casas, plantações. Inclusive uma plantação de linguiças! Um sonho grande, organizado... e que me deixava apreensiva. Tão pequena e me lembro claramente da angustia que sentia pensando que ele sonhava tanto com isso, que decepção seria não conseguir ter. Melhor seria que não sonhasse!

E aí que fui pensando assim pela vida. Melhor, para não viver a decepção de não realizar um sonho, não sonhar.

Por muito tempo pensei assim. Mas agora, parece que neste novo e maduro ciclo se abre uma nova janela. E ela mostra muitas possibilidades. Nada de plantação de linguiça. Nada de sonhar com o que vou ser. Acho que agora, finalmente, as janelas se abrem para o desfrute. Vou desfrutar o que sou. Confiar no merecimento de ter aquilo que quero e que batalhei para construir.

Comprar o carro que quero. Que talvez não seja a melhor escolha, mas se me der prazer... será a melhor escolha!

Planejar as viagens que me darão prazer. Sozinha, acompanhada, curta, longa, para lugares distantes ou para lugares muito próximos.

Ler os livros que me deem prazer. Sem preocupação com a aprovação dos outros sobre o que eu leio. E tudo bem se depois de adorar um livro eu ler que ele é reacionário e de qualidade inferior... hahahahahahaha... tudo bem que eu nem tinha notado...

Então agora eu sonho em poder ser eu mesma agora que eu cresci. Resolver coisas da forma que for mais confortável pra mim, da forma que me fizerem mais feliz.

E poder postar um texto curtinho sem nem mesmo reler...

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Meu filho, Germiro

A casa do Jardim Ester era uma alegria! Um sobradinho, geminado dos dois lados em um conjunto em que todas as casas tinham o mesmo projeto, com pequenas diferenças como uma entrada lateral, ou um quarto a mais...
A semelhança entre as casas me fez ficar rodando na rua mais de uma vez pensando: qual é a minha??? Mas eu acabava acertando...
E passear pelo conjunto República nunca foi um sacrifício. Era uma oportunidade de conhecer os vizinhos, de ver o Pedro fazendo um novo amiguinho. Depois passear com o "trem", o carrinho dos gêmeos, com o Pedro sentado no braço, a Isabela do outro lado...
Tenho desta casa lembranças deliciosas, apesar de ter vivido ali também alguns períodos e situações muito difíceis.
Mas era uma delícia cozinhar vendo as crianças brincando no quintalzinho. Apesar de pequeno ele comportava o varal para muitas roupas de crianças estendidas, comportava a casinha da nossa cachorra parte da família, a Nani. Comportava uma rede, que uma vez não aguentou o meu peso grávida, com o Pedro no colo e desabou no chão. Neste quintal coube uma fila de bichinhos que as crianças acharam muito importantes de se ter: Aladim, o canário; Rafaela, a coelha; Leleco, o pintinho; Ximbica, a Airdale Terrier que ensinou a Nani a caçar pombos...

Mas este quintal era habitado também por outras figuras...

De repente o jeito de dirigir a bicicleta ficava diferente... um pouco mais arrojado, meio que deixando o quadro mais inclinado. O barulho simulado ficava mais próximo de uma moto. Mas o ponto marcante era a freada. Na porta da cozinha, segurando a bike como uma moto. Retirando o capacete imaginário e dizendo com um certo sotaque nordestino, uma voz mais grossa e velha, um olhar de pessoa experiente: Pediu pizza, Dona Martha?!

Na primeira vez foi muito estranho! Aquele menino pequeno... devia ter uns cinco anos... e de repente tudo parecia transformado! Era o entregador de pizza... um entregador alegre, conversador, atencioso, sedutor apesar de respeitoso. E um entregador que conhecia a cliente, perguntava das crianças e ao mesmo tempo contava da sua vida.
Imigrante, veio do nordeste tentar a vida. Aqui conheceu e se apaixonou pela Maria, também nordestina. casou com ela e viviam muito bem juntos. Nada de filhos, que é muita responsabilidade e precisa ter dinheiro.

Gostava muito do seu trabalho:  - Ganhar dinheiro pra andar de moto e conversar com um monte de gente? É bom! Não que todos os clientes sejam assim como a senhora, que me trata bem, me respeita, se interessa... mas está até dando pra guardar um dinheiro! E depois de feita a entrega da pizza e de receber o pagamento e a gorjeta, lá se ia o Germiro para outra entrega.

Esta visita se tornou frequente. De tempos em tempos lá vinha a bicicleta/moto com o menino/homem entregando pizza! Depois de algum estranhamento me acostumei. Afinal, não era o primeiro personagem que tomava conta do André. Ele já tinha sido cachorro por bastante tempo: outra história que vale uma outra postagem em outro momento.

A marca do Germiro era a alegria! Sempre de bem com a vida. falava da Maria com amor, lembrava da família no Nordeste e dizia que estava guardando um dinheiro para ir pra lá visitá-los. Eu dava corda... queria ver até onde iria a imaginação daquele pequeno... e ia longe! Sem perder o personagem! Sem errar a voz!  E sempre divertido e alegre. Ele ficava pouco. Afinal, tinha outras pizzas pra entregar. Era só um dedo de prosa.

Um belo dia me dei conta de que o Germiro não aparecia mais. Não me lembro se tentei chamá-lo. Acho que não. Eu só respeitava o fato quando ele vinha "brincar" por conta própria. E pronto... achei que o Deco teria esquecido o Germiro.

Uma noite, eu lá fazendo o jantar, André na bicicleta no quintal... lá vem a parada de moto que era tão conhecida! Germiro voltou! Mas no gesto de tirar o capacete imaginário a expressão era outra! Triste, sério. E aí a declaração: Vim só me despedir, Dona Martha.

- O que aconteceu, Germiro?

E eu esperava qualquer resposta, menos a explicação que se seguiu:

- Estou indo embora pro nordeste, Dona Martha. Fiz a maior besteira da minha vida. Matei a Maria!

Emudeci atônita!

- Precisava agradecer a senhora por tudo que fez por mim. Por ter sido sempre boa comigo. Mas eu fiz esta besteira. Estou muito triste, mas preciso seguir com a vida. Vou embora. Quem sabe consigo tocar a vida indo pra longe... Obrigado, Dona Martha.

E lá se foi o Germiro. Triste, com a sua moto. Nunca mais voltou.




Dias tristes, momentos de decisão...

Alguns dias me parecem especialmente tristes. Dias com o céu nublado, cinza, plúmbeo, como aprendi em alguma leitura e nunca me esqueci porque foi feita justamente quando o céu me parecia especialmente de chumbo, logo depois da morte da minha mãe. Claro que o céu cinza, nublado, ameaçando uma chuva triste, tem participação no estado de espírito.

Mas será só isso? Minha tristeza não terá a ver também com os sonhos que não me lembro, mas que devem povoar as minhas noites? Não terá a ver com o meu sono, quase sempre cortado por muitos despertares? Não terá a ver com o momento de vida, em que muitos medos me assolam? Não terá a ver com esta tal desta consciência da finitude que parece chegar querendo ou não quando entramos ou nos aproximamos da terceira idade? E grita na sua cabeça que esta será a sua terceira e última etapa por aqui. 

Esse medo não é - eu penso - da morte ou do que acontece depois dela. O medo é de quando ela virá e se até lá terei dado conta de tudo. Sairei da vida para entrar na História? Não nesta História maiúscula, do Getúlio, mas na história daqueles que ficam e que interferi ou coadjuvei as vidas. Sairei sem deixar dívidas? Não só financeiras, mas muito mais que isto, dívidas emocionais...
Fiz as pazes com aqueles que queria ter feito? Dei atenção para aqueles que amo? Compreendi e deixei claro que compreendi melhor aqueles que pensam diferente de mim? Deixei meus filhos seguros do tanto que são amados e da importância que tiveram para a minha felicidade? E apesar disto, deixarei ao mundo pessoas que sabem que não são o centro do mundo e que tem responsabilidades?

Sairei sem ter dívidas comigo mesma? Conseguirei zerar o meu débito com a menina que fui, com a mulher que sou? Conseguirei nos próximos anos ser a pessoa que sou genuinamente e não a que acredito que os outros esperam que eu seja? Serei quem quero ser, mais do que quem querem que eu seja?

Quero viver bastante. Mas, como todo mundo, quero viver com qualidade de vida. E isto não significa só saúde. Algumas coisas são fundamentais!

Independência pra mim é fundamental. Não depender financeiramente de ninguém. Ser capaz de cuidar das minhas coisinhas: contas, casa, comida, eu mesma. Poder estar sozinha. Não o tempo todo, mas algum tempo. Um bom tempo.

Poder ler, escrever, cozinhar, assistir filmes, arrumar minha casa. Poder passear um pouco. Talvez umas viagens gostosas e não muito longas. Um cineminha com as amigas. Uma exposição bonita.

Dar conta de brincar e conversar com os netos. Com os filhos e sobrinhos também. Com os amigos.

Mas antes de chegar a esse momento em que me ocuparei apenas destas coisas tão pessoais e me dedicarei integralmente a minha própria vida, preciso de alguns anos ainda produtivos, que me rendam dinheiro, pra poder vir a ter esta independência. E aí me dou conta, de que preciso para isso ser fiel aos meus propósitos e princípios de sempre: só funciono se movida por acreditar no que faço! Preciso de paixão! Preciso de confiança! Preciso acreditar no que faço e considerar minhas tarefas importantes. É assim que me encontro...