segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Minha vida interessante

Começar com um domingo de sol e as "minhas crianças" por perto é sempre muito bom. E tem a diversão da cozinha. Como eu gosto destes trabalhos domésticos! Me sinto em estado de meditação divertida entre minhas panelas! Decidir o que fazer, verificar se os ingredientes estão em ordem, e, finalmente, me envolver no preparo! Delícia!!!! Nesse domingo uma festa do porco! Arroz, feijão, escarola refogada e salada mista, sem nada pesado, para compensar o prato principal: lombo e costela de porco temperados na véspera, sem nenhuma parcimônia... farofa com calabresa e bacon... Sobremesa: Pudim de leite condensado. Ficou bom. Para mim faltando um pouco de sal em tudo, mas sal se complementa no prato! kkkk... e o Francisco, que prefere comidas saudáveis e ainda evita açúcar (tirando sorvete e chocolate, que ele nunca rejeita!), se divertiu e completou a refeição com bananas. E depois do almoço, de estar com o coração recarregado de amor e energia, deu até para adiantar a arrumação da cozinha, que estava muito fácil. Depois, só preguiça. E um bom livro! Estou lendo "Memorial de Maria Moura", apaixonada!!!!

Uma segunda-feira diferente! Com pouca coisa para fazer em casa - a cozinha já estava praticamente arrumada - dei só uma ajeitada geral, afinal, não consigo sair sem pelo menos uma vistoriazinha, e lá fui para uma reunião no Cepeusp, com o pessoal do @Butantã + Caminhável! Ai, como essa gente me faz bem!!!! Remédios, Maykell, Marcos, Luis Dantas abrilhantando a manhã... Suzana passando rapidinho... cada um deles me encanta. Me esclarecem coisas que rodam na cabeça sem compreensão, acrescentam ideias, distribuem generosidade. Com eles eu sempre aprendo. E me emociono com o acolhimento; com o compartilhamento do café, da tapioca, das ideias e dos sentimentos. E com eles percebi as coisas que tem pesado para mim no funcionamento da Rede. Uma delas, o fato de não sentir mais as reuniões como um espaço de fortalecimento de cada um e muito mais um espaço de propaganda de cada grupo, foi desmentida a noite, em uma reunião virtual que resgatou em mim a crença de que ainda vale a pena estar na Rede e contribuir para que as reuniões aconteçam. Reunião gostosa, tranquila, com as pessoas interessadas em se ouvir, em participar, em ajudar da forma possível. Reunião para compreender, para juntar forças, para renovar energias. Reunião com um lindo depoimento no final, sobre a importância e o poder da arte e sobre os caminhos que a possibilidade de estar junto abrem.



Perdas. E ganhos.

 Meus pais morreram em agosto. Ela no dia três. Em 1972. Eu tinha acabado de completar treze anos. Foi um mês de chuva, de céu cinza carregado de nuvens. Um mês de dias tristes. No rádio tocava Águas de março. E minhas lágrimas formavam as águas de agosto. Na TV a novela das oito era Selva de Pedra. Triste também, embora eu só me lembre disso: que era triste, que tocava Rock and roll lullaby e que eu amava o ator João Paulo Adour. Foi um tempo de muita solidão. Um tempo de muitas leituras. De sonhos estranhos e consoladores. De paixões platônicas. Foi um tempo de medo e insegurança. 

Quase cinquenta anos depois meu pai morreu no dia 18 de agosto de 2020. Em um ano em que enfrentamos uma pandemia e um governo autoritário e ensandecido. Longe dos 13 anos da primeira grande perda, agora me acostumo ao fato de ser uma senhora. Legalmente uma idosa. Este agosto foi bem mais solar. Apesar de alguns dias bem frios, teve pouca chuva e eu não estive sozinha, mesmo com todas as restrições ao convívio social. Não tive sonhos consoladores, fiz leituras mais preguiçosas e tento olhar mais pra dentro de mim mesma. 


Sobre mães e férias e preenchimento de vazios...

 O almoço na casa da minha tia saia cedo. As 11h a mesa estava posta e nós acordávamos para almoçar. Uma comida sempre deliciosa. Quase me lembro do gosto. Aquela casa cheia de primas, de aconchego, de sabores e perfumes me encantava. A cidade com o céu mais cheio de estrelas que já vi. A descoberta do desejo. A delícia de ouvir a rádio local. Os bailes, as fofocas, confidências...

Sinto saudades da viagem, algumas vezes feita de trem. Que delícia. Parando em cada estação. Me deu uma noção bastante esquisita da localização das cidades. parece que a ordem era trocada... na minha cabeça ficou marcada uma ordem que provavelmente eu construí, com as referências que tive: Dois Córregos, Jaú, Itirapina... o trevo de Brotas! A estação. Até hoje tão bonita. Pena que não param mais trens lá.

E como era bom tudo aquilo... tantas primas para admirar... a linda, a rebelde, a boa amiga, a independente, a séria... e naquela casa de mulheres um pai sério e ao mesmo tempo terno. Talvez não fosse realmente assim, mas na minha cabeça aquela casa e aquela família eram a imagem da mansidão, da harmonia, das coisas corretas. Tudo era como deveria ser.

Minha tia era uma presença de mãe magnífica! Ela é até hoje. Eu sempre admirei mães, mesmo antes de perder a minha. A Tia Terezinha foi uma presença tão importante neste momento em que um grande buraco se abriu na minha vida. Uma das minhas mães, com quem aprendi, a quem procurei copiar, a quem sou profundamente grata. 

Cicatrizes

 Tempo, tempo, tempo, tempo...

Nunca me importei com eventuais cicatrizes em meu corpo. Achava natural que algumas marcas ficassem, em geral de eventos importantes. Minha boa cicatrização também ajudava. Uma marca escura na batata da perna direita me lembra até hoje que escapamentos de moto queimam. E que a minha cicatrização de queimaduras não é tão boa. Mas, mais que isso me lembra de uma época maravilhosa em que eu até andava de moto!

Tenho pensado muito em cicatrizes. O que elas me recordam? Quanto me limitam? Hoje fiquei pensando, enquanto fazia yoga, em quais conclusões um médico tiraria sobre a minha vida em uma necrópsia. Macabro? Não foi essa a ideia. Achei até engraçado. 

Se for um médico ou médica atento, logo deduzirá que eu gostava de cozinhar. E que era um pouco estabanada na cozinha. Talvez pelo desejo de fazer sempre muitas coisas ao mesmo tempo. Minhas mãos e braços tem várias marcas: forno quente que fechou na altura do cotovelo, marcas de grelha de forno, queimadura de caramelo (esta é muito irritante porque é pequena e feia! E quantos pudins eu já fiz na vida? Fazendo um calculo rápido devo ter feito mais de 400! Então queimar a mão caramelando forma no 401º é o fim!)...







Lu e Maró

 Por que a gente se perde de pessoas que amamos? Sem nenhum desentendimento, sem briga, sem grandes mudanças geográficas... 

Continuamos quase vizinhas. Mantivemos os mesmos números de telefone por anos e anos. Nossas vidas nem sequer tomaram rumos inesperados ou surpreendentes. Mas nos perdemos. Mesmo sem esquecer. Mesmo sem deixar de querer bem, nos perdemos. 

Um ou dois encontros em trinta anos. Um enterro, um encontro casual... 

Uma notícia assustadora. É agora ou nunca mais! E assim, timidamente nos reencontramos.

Com a minha velha teoria de que sou eu que sempre falho ou falto, cheguei procurando desculpas, justificativas, sem coragem de perguntar sobre o que se passa, só querendo justificar minha falta no passado, talvez até prevenir de uma futura falta também no futuro...

Não era necessário. Não eram solicitadas justificativas. Afinal, eu também não precisava delas para voltar a me sentir próxima, para nos reencontrarmos, para saber que alguns elos tem vínculos tão fortes que se refazem sem necessidade de grandes cirurgias. Não são necessários pedidos de perdão, desculpas, explicações. Basta a presença. E, assim, nos reencontramos.

Quinhentos anos de vida para colocarmos em dia. Muitas lembranças para resgatarmos. Algumas absolutamente iguais e complementares, outras tão diferentes que parecem inventadas por um lado ou pelo outro.

Conversas que se estendem por horas. E poderiam continuar por outras tantas horas... 

O que temos ainda por aqui? Quantas horas serão possíveis? Quanto conseguiremos acertar o passo de nossas conversas? Quanto eu ainda poderei aprender? 

Por que os chamados e a permanência? O que ainda te mantém aqui? Quais são os seus medos? Quais são os meus medos?

O que aprendemos com as aflições que passamos? 

E assim tive a oportunidade de me despedir. Talvez tenham faltado encontros. Algumas perguntas eu não tive coragem de fazer. Algumas histórias vividas nós não lembramos. 

Que possam cair as lágrimas e que permaneçam também as risadas. Saudades da amiga mais antiga. 


Tempo, tempo, tempo, tempo

Já faz algum tempo que eu penso sobre o tempo... e desenvolvo teorias a respeito. Provavelmente sem muita possibilidade de comprovação, mas teorias que aquietam meu coração. Para mim o tempo se mantem o tempo todo. Quando lembramos, revisitamos aquele tempo que está lá, existente, com os personagens que o compuseram . E assim permanecemos vivos pelo menos pelo tempo em que somos lembrados. Mas eu nunca tinha relacionado o meu interesse por este tema às minhas intermináveis listas. Listas de coisas passadas e de questões futuras. Livros lidos, amores vividos/perdidos, filmes vistos, tarefas a fazer... Em todas elas a relação com o tempo é clara. Nas que são planejadas para o futuro muitas vezes o complemento da lista é a distribuição das tarefas em uma agenda, raramente cumprida. A leitura de O som e a Fúria me colocou muito neste lugar de pensamento de como o livro me afetou e, entre outras coisas, se colocou esta questão do tempo. A inexistência de futuro nesta história de alguma forma me levou a pensar sobre as minhas listas e como as tarefas a serem cumpridas me dão de certa forma uma crença no porvir. (Escrevi isso antes do Tudo em todo lugar ao mesmo tempo, tá?) E descobrir que minha filha usa meu nome em uma senha, ou que talvez um dia eu venha a ter uma neta chamada Martina, que não deixa de ser uma derivação do meu próprio nome, me emociona e me garante viva. E viva para novos desafios, com novas ideias e novos propósitos, com novos erros, escolhas, acertos. Não será isso uma forma de continuar? Não é isso o viver uma nova vida? E na sociedade do metaverso poderei ter outros gêneros, poderei novamente ser criança e distrair meus filhos da falta que podem sentir de mim, mesmo que sem ser esquecida. Meu pai continua em minhas lembranças todos os dias. Sinto sua falta e sua presença.

Pendências

Cinco anos atrás, pouco depois de ter me aposentado, promovi na minha casa uma série de encontros durante uma semana inteira. Sem temas ou pautas definidas, foram encontros para conversar, para apresentar pessoas, para promover reflexão e propiciar ideias! E, especialmente, para passarmos juntos momentos agradáveis. Foi o que aconteceu. Foi uma semana intensa de encontros alegres e agradáveis. Terminei a semana exausta, feliz e cheia de ideias! Louca para dar continuidade à minha habilidade de unir pessoas e otimista de que conseguiria encontrar, em algum momento, uma forma até de ganhar algum dinheiro com isso e complementar a minha renda de aposentada. 
Cinco anos se passaram e eu não retomei os encontros. Está certo que houve a pandemia. E a pandemia é sempre uma resposta justa para muitas coisas! Adiamentos, desistências, mudanças de rumo, depressão...Aconteceu também a morte do meu pai e, acho que pela primeira vez depois de muitas perdas, me permiti viver um tempo de luto. Tivemos quatro anos de governo Bolsonaro e isto talvez justifique tanto quanto a depressão, o desânimo... 
Cinco anos se passaram e agora me encontro em outro momento: Completei dez anos de terapia; estou participando do planejamento do casamento da minha filha, e me surpreendendo com quanto isto me emociona; tenho agora perto de mim um garotinho marrento que me chama de vovó e que vez por outra vem bagunçar minha casa, desafiar minhas regras e derrubá-las com a maior facilidade, me surpreender com pequenas e grandes descobertas, encher meu coração de ternura e garantir que continuamos presentes. 
Mas, por mais desculpas e sentidos que eu encontre na protelação desta e de outras ações, não consigo deixar de pensar em por que tenho tantas pendências? Tenho uma pasta de pendências cheia de papéis que me lembram coisas que eu gostaria de fazer ou que em algum momento eu me comprometi a fazer e nunca fiz. Algumas destas coisas, talvez até todas elas, podem vir a não ser feitas nunca. Na maior parte dos casos não tem ninguém me cobrando para fazê-las. Na totalidade não acontecerá nada de grave se eu não as realizar nunca. Então, porque eu não retiro da pasta? Ou porque eu não me coloco em ação?
O que me segura?