segunda-feira, 11 de setembro de 2023
Quarenta e oito horas
Cinquenta e sete
O canário
Mas este sonho marcou. Não só me lembrava perfeitamente dele, com detalhes, como queria muito contar, achando que ele não fazia muito sentido.
Sonhei que estava na minha casa de infância. Um sobrado grande onde cresci e onde passei por momentos muitos felizes (a entrada na escola, as brincadeiras de criança, a entrada na faculdade, as tardes de conversa com amigos queridos da escola, a visão do quintal vizinho, onde em uma festa aconteceu meu primeiro beijo) e outros muito tristes (a morte da minha mãe, os desentendimentos com meu pai, o grande susto com o Pedro, quando já não morava mais lá).
Coincidentemente - ou não - esta casa também é o cenário de sonhos que tinha com frequência na adolescência: o sonho assustador da minha fuga de um perseguidor desconhecido de quem eu corria pela rua até entrar em casa pela lateral, quase aliviada e segura, mas que ao subir a escada do quintal para a cozinha eu tropeçava e me transformava em presa fácil do algoz. Acordava em pânico, sem identificar o desconhecido. Também sonhava com meus frequentes pesadelos de enfrentamento de altura. Precisando sair da casa pela janela do meu quarto, que dá para a mesma descida lateral e deve ter uns seis metros de altura.
Mas voltando ao sonho do canário. Sonhei que estava na casa. Tenho uma idade não muito clara e também não sei muito bem o que estava fazendo lá, mas me lembro de repente com um grande susto, do canário. Um canário que eu me lembro existir preso em uma gaiola na área de serviço, lá embaixo. Um canário que era minha obrigação cuidar. Mas que me esqueci e não cuidei. Corro para o lugar da gaiola e lá está ele: morto. Morto por negligencia, por esquecimento, por irresponsabilidade. Minha. Minha irresponsabilidade.
A aritmética da vida
Agora estamos chegando no dia 3 de agosto. Vão se completar 44 anos da sua morte. Uma vida sem ela.
Sobre o medo
- Vou guardar este texto, acho que em algum momento eu quero escrever sobre isto.
- Você vai escrever sobre São Paulo, mãe?
- Não. Quero escrever sobre o medo. Sobre o cansaço da luta. Sobre o desejo de retorno à normalidade, por pior que ela possa ser.
Dias de Abandono
E eu acho que eles vão todos para o inferno porque são muito egoístas.
E agora ouvindo esta mensagem vejo claramente como estas coisas me desgastam e cansam. Problema deles se não vão! Problema deles se se sentem bem ou mal! Quando eu cobrei para que eles me ajudassem? Por que me sentir mal porque não ajudam?
E esta noite (27 de outubro) eu sonhei que eu morava em um apartamento diferente e pequeno. Parece que eu morava sozinha. Aí fui abrir a porta de entrada do apartamento e a Virgínia estava lá, encostadinha na parede, esperando que alguém abrisse a porta. Ela estava muito abatida e confusa, mas ainda andava. Entrou rápido, para tomar banho e se aquecer.
Acordei assustada e fiquei me sentindo mal com tanto abandono.
Em meio a estas notícias, filhos em três cantos diferentes, aproveitando o carnaval, o sol e dando sempre menos notícias do que eu gostaria. Uma indisposição geral me incomoda, com uma dor no joelho que não cede apesar de ser resultado de um tombo de quase três semanas atrás. Fico pulando da minha casa para a casa de uma amiga que viaja e que tem cachorro e plantas para cuidar. Estranho a casa, a cama (ela se preocupa que o cão não durma sozinho), sinto pena de passear com ele sempre menos do que ele gostaria e muito mais do que meu joelho permite...
Me fazem companhia uma nova série espanhola de viajantes no tempo (Ministério do Tempo, uma série espanhola), alguns encontros com amigas queridas e mais um livro da Elena Ferrante: Dias de Abandono. Li vários outros livro dela. Gostei de todos, todos me tocaram. Mas este revolveu meu passado. Reabriu feridas antigas, mal cicatrizadas. Me colocou questões que só terão função e utilidade se eu conseguir trazer pra hoje.
Ideias soltas?
O dia surpreendeu a todos. Limpo. Um céu claro, de primavera. Com cheiro de terra molhada. A chuva deve ter sido forte. Limpou tantos dias de pó, de mosquitos, de lágrimas, de angustia.
Eu me vi pensando no que ocuparia aquele vazio que estava sempre tão presente. Eu. Meus sentimentos, minha interioridade, meu sentir. Meu amor e minhas dores. Minha alegria e minha potência.
O apartamento podia vir a ser um refugio sem custo. Podia até se transformar em um quarto e sala. Com cozinha, escritório e uma ampla sala de jantar. Mas só para quando eu os quiser abrir.
E ficou o gato. Que representação tem este bichinho tão enigmático? Tão doce.
Seria esta a forma de perpetuar aquele sobrenome que vai se extinguindo? Estamos acabando. Restarão alguns adotantes sem vinculo real. Ou serão estes os vinculos que realmente importam?
Um pseudonimo... tão engraçado pensar nisso antes de ser capaz de escrever qualquer coisa que necessite de assinatura.
Como as prioridades se estabelecem. Ou não. Quando a sua mensagem do whatsapp é para ser vista, lida, ouvida... ou se é pra ser deixada pra depois. Quem sabe enquanto você faz o almoço, sua mensagem pode ser vista?
10.outubro.2020
É feio sentir inveja, não é? Mas é quase inevitável.
O que me cabe?