segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Quarenta e oito horas

Quarenta e oito horas foi o tempo necessário para eu pensar em escrever a respeito. O gosto das lágrimas continua impregnado na minha garganta, no meu nariz. Ainda não passou de todo a raiva. A raiva pelo descontrole. A raiva pelos desaforos. A raiva do esquecimento, que não me permite avaliar de fato o que foi aquele cataclisma. A raiva por saber que muito mais do que quarenta e oito horas eu contive raivas por muitos anos e agora, como uma raiz de árvore que rompe a terra, ela sai... nem sempre para o lado certo, sem cuidado, sem controle, machucando flores que foram cuidadas por anos.

22.fevereiro, 2023


Cinquenta e sete

Se aproxima o meu aniversário. Cinquenta e sete anos. Estranho como parece que agora o tempo desembestou e corre...
Fiquei pensando que, como um livro bom, agora peguei o gosto! Começo a aprender a desfrutar. Prestar atenção nos detalhes. Não dar tanta importância aos parágrafos chatos e me deleitar com os bons! Querendo que dure...

13.junho.2016

O canário

Eu nunca me lembro dos meus sonhos. Chego até a pensar que não sonho. As vezes eu me lembro ao acordar, mas quando penso em contar pra alguém a lembrança já foi embora!
Mas este sonho marcou. Não só me lembrava perfeitamente dele, com detalhes, como queria muito contar, achando que ele não fazia muito sentido.
Sonhei que estava na minha casa de infância. Um sobrado grande onde cresci e onde passei por momentos muitos felizes (a entrada na escola, as brincadeiras de criança, a entrada na faculdade, as tardes de conversa com amigos queridos da escola, a visão do quintal vizinho, onde em uma festa aconteceu meu primeiro beijo) e outros muito tristes (a morte da minha mãe, os desentendimentos com meu pai, o grande susto com o Pedro, quando já não morava mais lá).
Coincidentemente - ou não - esta casa também é o cenário de sonhos que tinha com frequência na adolescência: o sonho assustador da minha fuga de um perseguidor desconhecido de quem eu corria pela rua até entrar em casa pela lateral, quase aliviada e segura, mas que ao subir a escada do quintal para a cozinha eu tropeçava e me transformava em presa fácil do algoz. Acordava em pânico, sem identificar o desconhecido. Também sonhava com meus frequentes pesadelos de enfrentamento de altura. Precisando sair da casa pela janela do meu quarto, que dá para a mesma descida lateral e deve ter uns seis metros de altura.
Mas voltando ao sonho do canário. Sonhei que estava na casa. Tenho uma idade não muito clara e também não sei muito bem o que estava fazendo lá, mas me lembro de repente com um grande susto, do canário. Um canário que eu me lembro existir preso em uma gaiola na área de serviço, lá embaixo. Um canário que era minha obrigação cuidar. Mas que me esqueci e não cuidei. Corro para o lugar da gaiola e lá está ele: morto. Morto por negligencia, por esquecimento, por irresponsabilidade. Minha. Minha irresponsabilidade.

Texto escrito em junho de 2016. O sonho aconteceu no começo de 2013 e graças a ele resolvi voltar a fazer terapia. Graças a terapia e a análise deste sonho no final do ano fui para a Europa e no retorno mudei de casa! 2013 foi um ano inesquecível!

A aritmética da vida

Todo 13 de maio faço as contas! Minha mãe teria feito neste ano, 92 anos! Seria bárbaro se ela estivesse viva! Penso se ela teria ensinado os netos a tocar piano, se eu teria aprendido a fazer a sopa de couve-flor, ou o strogonofe de camarão, o brioche ou até o doce de leite tão simples, cortado na pedra da pia. Penso se os natais teriam sido em casa, se eu me acharia mais bonita, se meu irmão teria mudado de faculdade, se meu pai seria mais feliz.
Agora estamos chegando no dia 3 de agosto. Vão se completar 44 anos da sua morte. Uma vida sem ela.

01.agosto.2016

Sobre o medo

" Ramon encontrava uma cidade cansada, ou melhor, desencantada, assediada pela escassez e ansiosa por regressar a uma normalidade destruída pela guerra e pelos sonhos revolucionários. Era como se as pessoas só aspirassem levar uma vida comum e banal, às vezes mesmo ao preço infame da rendição" (Leonardo Padura - O Homem que amava os cachorros)

- Vou guardar este texto, acho que em algum momento eu quero escrever sobre isto.

- Você vai escrever sobre São Paulo, mãe?

- Não. Quero escrever sobre o medo. Sobre o cansaço da luta. Sobre o desejo de retorno à normalidade, por pior que ela possa ser.

03.janeiro.2017

Dias de Abandono

Sintam-se mal! Porque eu me sinto mal por ir pouco lá e porque eu me sinto mal por ver meu pai chorando a cada vez que vou lá.

E eu acho que eles vão todos para o inferno porque são muito egoístas.

E agora ouvindo esta mensagem vejo claramente como estas coisas me desgastam e cansam. Problema deles se não vão! Problema deles se se sentem bem ou mal! Quando eu cobrei para que eles me ajudassem? Por que me sentir mal porque não ajudam?

E esta noite (27 de outubro) eu sonhei que eu morava em um apartamento diferente e pequeno. Parece que eu morava sozinha. Aí fui abrir a porta de entrada do apartamento e a Virgínia estava lá, encostadinha na parede, esperando que alguém abrisse a porta. Ela estava muito abatida e confusa, mas ainda andava. Entrou rápido, para tomar banho e se aquecer.

Acordei assustada e fiquei me sentindo mal com tanto abandono.

27.outubro.2016

Carnaval difícil... notícia de que uma amiga muito próxima teve um AVC... visita tranquilizadora. Está se recuperando muito bem e tenho certeza de que logo estará completamente boa. Mas o susto, a constatação do risco, a evidência gritante de que já não somos jovens e de que é necessário ter mais cuidado com a saúde. Logo a seguir, notícia de que uma jovem de não mais que trinta anos, que trabalhou comigo e esbanjava saúde, estava em coma. Levou uma descarga elétrica ao encostar uma escada de alumínio em um fio desencapado. Socorro demorado, paradas cardíacas, UTI, morte cerebral e em dois dias ela se foi.

Em meio a estas notícias, filhos em três cantos diferentes, aproveitando o carnaval, o sol e dando sempre menos notícias do que eu gostaria. Uma indisposição geral me incomoda, com uma dor no joelho que não cede apesar de ser resultado de um tombo de quase três semanas atrás. Fico pulando da minha casa para a casa de uma amiga que viaja e que tem cachorro e plantas para cuidar. Estranho a casa, a cama (ela se preocupa que o cão não durma sozinho), sinto pena de passear com ele sempre menos do que ele gostaria e muito mais do que meu joelho permite...

Me fazem companhia uma nova série espanhola de viajantes no tempo (Ministério do Tempo, uma série espanhola), alguns encontros com amigas queridas e mais um livro da Elena Ferrante: Dias de Abandono. Li vários outros livro dela. Gostei de todos, todos me tocaram. Mas este revolveu meu passado. Reabriu feridas antigas, mal cicatrizadas. Me colocou questões que só terão função e utilidade se eu conseguir trazer pra hoje.

13.fevereiro.2018

Ideias soltas?

 O dia surpreendeu a todos. Limpo. Um céu claro, de primavera. Com cheiro de terra molhada. A chuva deve ter sido forte. Limpou tantos dias de pó, de mosquitos, de lágrimas, de angustia.

Eu me  vi pensando no que ocuparia aquele vazio que estava sempre tão presente. Eu. Meus sentimentos, minha interioridade, meu sentir. Meu amor e minhas dores. Minha alegria e minha potência.

O apartamento podia vir a ser um refugio sem custo. Podia até se transformar em um quarto e sala. Com cozinha, escritório e uma ampla sala de jantar. Mas só para quando eu os quiser abrir.

E ficou o gato. Que representação tem este bichinho tão enigmático? Tão doce.

Seria esta a forma de perpetuar aquele sobrenome que vai se extinguindo? Estamos acabando. Restarão alguns adotantes sem vinculo real. Ou serão estes os vinculos que realmente importam?

Um pseudonimo... tão engraçado pensar nisso antes de ser capaz de escrever qualquer coisa que necessite de assinatura.

Como as prioridades se estabelecem. Ou não. Quando a sua mensagem do whatsapp é para ser vista, lida, ouvida... ou se é pra ser deixada pra depois. Quem sabe enquanto você faz o almoço, sua mensagem pode ser vista?

10.outubro.2020

É feio sentir inveja, não é? Mas é quase inevitável.

O que me cabe?

Tudo. Por muito tempo foi assim que eu senti e pensei. Que a mim cabiam todas as responsabilidades, especialmente a responsabilidade de cuidar e garantir a vida e a felicidade dos outros.

20.janeiro de 2017